domingo, julho 19

Capítulo Vinte e Um Ponto Um

(...)

Todos ficaram surpresos, mas se apressaram a cumprir a ordem. Nunca fora uma boa idéia questionar Ramsus e, recentemente, se tornara ainda mais perigoso. Desde que ele se encontrara com o demônio do deserto, para ser mais preciso. Apenas Miang ousou contestar.
_ Não podemos, comandante! Não temos ordens da capital ainda. Se nos movermos daqui...
_ Pouco me importa! – retrucou Ramsus – Eu não vou permitir que eles escapem!
A decisão já fora tomada e Miang sabia que não podia fazer coisa alguma, preferindo retirar-se da ponte de comando. Não o fizera sem propósito, no entanto. Sabia quem iria encontrar no corredor contíguo, e não ficou surpresa quando as luzes tornaram a se obscurecer para revelar o vulto encapuzado.
_ Acredito que já tenha dito que seus truques não vão adiantar de nada.
_ Eu estou tentando apenas ajudar – ela disse com a voz amigável e distante de sempre – Não ajudei a se livrar daquelas ‘pestes’? E, depois, você sabe que o ‘veículo’ só vai responder ao escolhido. Eles não sabem disso. Mas... Ele é necessário para Kahr. É o próprio significado da existência dele.
As luzes obscuras e cintilando foram a única resposta, enquanto Grahf fitou Miang em silêncio. E ela tornou a sorrir.
_ Sim, eu preciso te agradecer. Afinal, você me ajudou, não foi?
Grahf continuou em silêncio, e Miang indagou:
_ Foi por mim? Ou por ele? Ou... por você mesmo?
A questão ficou suspensa no ar entre eles enquanto a nau capitânia de Ramsus deixou o hangar em Aveh e ficou suspensa no ar, alterando seu curso sobre a capital Bledavik.
_ Vamos tomar o curso secundário entre os portões Um e Dois – indicou o navegador – É o caminho mais curto para Aquvy.
_ Ótimo – respondeu o comandante.
_ Mensagem de Kelvena – avisou o oficial de comunicações – Dominia está de partida com o Haishao. Ela vai perseguir a belonave aérea.
Em outro lugar, um monitor enorme mostrava um horizonte marítimo, enquanto os rostos mostrados no globo maior debatiam.
_ Desobediência... As ordens de Ramsus são de escavar em busca das ‘Relíquias Anima’ em Ignas... e vigiar os Cordeiros. O que ele está...
_ Podemos recuperar as ‘Relíquias Anima’ a qualquer momento – ponderou outro ministro, numa tela azul – Mais importante, descobrimos que ‘ele’ estava na nave transferida. Ramsus provavelmente foi atrás ‘dele’.
_ Então... foi o trauma – comentou outro ministro numa tela de azul esverdeado, mas outro numa tela vermelha retrucou:
_ Nah, neste caso, Knigret... Foram as várias feridas externas.
_ De acordo com o Cubo de Memória – o ministro que falara em primeiro tornou a se pronunciar – descobrimos vários indivíduos em torno ‘dele’ que possuem o fator ‘animus’.
_ Isso é ‘Sufradi’ – perguntou outro, um ministro sem o olho direito – o objetivo do Projeto M?
_ Sim.
_ Coincidência?
_ Nah, muito além disso – tornou o ministro da tela azul esverdeada – Ou eles foram atraídos para ‘ele’ ou...
_ Inesperadamente, está se desenvolvendo na mesma condição que há quinhentos anos – comentou um ministro sem o olho esquerdo, ao que outro ponderou:
_ O que não exclui a possibilidade de que ele tenha planejado desta forma intencionalmente.
_ O ponto de transferência é Aquvy – comentou outro ministro numa tela azul – É próximo da Thames.
_ Se for Aquvy – o ministro da tela azul comentou – Krelian foi naquela direção.
_ Krelian? Em pessoa? – admirou-se um ministro em azul sem o olho direito – Para quê?
_ Parece que descobriram. Por mais de quatro mil anos ele procurou pelo legado de Zeboim.
_ Legado... – ponderou outro ministro – É aquela tecnologia de que ele estava falando?
_ Sim.
O monitor principal mudou seu foco, e todos silenciaram diante do rosto ancestral e cadavérico do Imperador Cain.
_ Engenharia molecular... Nanotecnologia. A terra de todas as criações, a capital da Cultura Zeboim... Descansando sob o Oceano de Aquvy. Por dezenove anos, o ‘Ethos’ manteve isso em segredo.
_ Isso é aceitável, Cain? – perguntou o ministro sem o olho esquerdo.
_ Sim, servirá por enquanto.
_ Dezenove anos... – ponderou outro ministro em vermelho – Isso coincide com a época em que a terra moveu-se...
_ Obviamente.
_ Mas não entendo. Essa tecnologia não parece tão crucial para nós...
_ Ele ainda é um Cordeiro – outro ministro comentou – Dar a ele a habilidade de fazer como deseja é questionável.
_ Há ocasiões em que mesmo nós não sabemos o que ele está pensando – concordou outro.
_ Que seja assim – interrompeu Cain – Eu assumirei a responsabilidade por isso. Sobre outra questão... Vocês todos não pretendiam... ‘eliminá-lo’?
_ Apenas por acaso.
_ É provável que a localização seja Ignas.
_ Seja como for, eu nunca acreditei que seria eliminado tão facilmente.
_ A purga foi um fracasso – o ministro sem o olho esquerdo declarou – Isso nunca tornará a ocorrer.
_ Se os ‘animus’ estão juntos, é ainda mais uma razão.
_ Sim.
_ Cain – o segundo ministro a falar indagou, curioso – por que ‘você’ está tão preocupado quanto a isso? Para nós, ‘ele’ é insignificante...
_ Poderia ser apenas um veneno para nós – confirmou outro – Nunca poderia ser um remédio.
Como o próprio Imperador Cain dissera uma vez, ele e o Ministério estavam como que conectados, e por vezes sentiam os pensamentos uns dos outros. E um deles comentou:
_ ‘Anonelbe’... Você não continua acreditando naquilo, continua?
_ É meramente uma ilusão – comentou outro ministro – Nem sequer é um ideal.
_ O resultado... É o que eu sou agora. É como você o vê.
_ Ou ainda – o ministro sem o olho esquerdo indagou – é a ‘emoção’ que você há tanto tempo esqueceu?
O Imperador não respondeu, seu silêncio tanto físico quanto mental, e o segundo ministro ainda disse:
_ Cain, nós somos ‘deuses’.
Sobre uma plataforma metálica sobre o mar, enquanto isso, Elly Van Houten despertou e descobriu-se sozinha.
_ Onde estou...?
Ela levantou-se, atordoada, olhando ao redor. Não havia nada além de mar por toda a sua volta, até onde a vista podia alcançar. Nada. Nem mesmo qualquer um de seus companheiros.
_ Eu estava com Fei, indo para o bloco da retaguarda... Fei! Onde está você, Fei?
Ela não teve que procurar muito. Estava num espaço metálico limitado sobre o mar, e não havia nada à vista... mas um som de batidas vinha de um alçapão próximo. E, assim que ela se aproximou, a tampa se abriu e um rapaz de cabelo preso saiu de lá, com um sorriso ao vê-la.
_ Elly, você já acordou.
_ Acordei...? O que você estava fazendo?
_Estava dando uma olhada ali dentro – mostrou o alçapão – Tem o suficiente só pra menos de dois dias...
_ Do quê?
_ Comida. Temos sorte até de ter achado alguma.
_ Mas, onde está todo mundo? Somos os únicos sobreviventes?
_ Temos que fazer alguma coisa – Fei voltou-se, indo na direção do mar – Acho que vou pegar alguns peixes.
_ Fei!
E ele parou. Tinha agido como se não a ouvisse, mas antes de mergulhar no espaço vago entre as duas placas da plataforma, ele se deteve por um instante e disse, sem se voltar:
_ ... Eles estão bem.
_ O quê?
_ Estão bem... Doc, Rico, Hammer, todos... Vão todos estar bem.
Ao menos, ele queria muito acreditar nisso. Parecia que havia algo contra ele, sempre que reunia os amigos, algum evento além de seu controle vinha para separa-los. Ao menos, os destinos estavam ficando menos caprichosos, pensou. Desta vez, ao menos continuara com Elly.
Voltou-se para olhar a moça por um momento. E sorriu. Sim, podia acreditar que os amigos estavam bem. Elly e ele tinham conseguido, por pior que tivesse sido. Tinha que dar crédito a Rico, Citan e Hammer, também. E mergulhou no mar, tentando pegar algum peixe.
_ Hammer, Rico... Acordem!
Tanto o Campeão dos Lutadores de Kislev quanto o mecânico Hammer despertaram aos poucos, chamados pela voz familiar de Citan, e para se descobrirem num aposento metálico amplo e sem janelas, embora houvesse uma escotilha redonda em uma das paredes. De pé diante deles, o Doutor esperava.
_ Onde estamos? – perguntou Hammer.
_ Que lugar é esse? – Rico olhou desconfiado ao redor – Tem alguma coisa cheirando mal nessa história.
_ Estamos dentro da nave de Bart e sua tripulação – respondeu Citan – Eles nos resgataram depois de termos sido derrubados no Golias.
_ Quem diabos são ‘Bart e sua tripulação’? – perguntou Rico, ainda sem entender.
_ Vamos dizer... – Citan contornou a pergunta cautelosamente, imaginando que a reação de Rico poderia ser igual à sua própria impaciência anterior, mas incomensuravelmente mais explosiva – que eles são bandidos... roubando Aveh. Bart é o líder deles, embora ainda seja um jovem.
_ Um ladrão nos dias de hoje, nesses tempos difíceis? – Rico ponderou – Um homem de atitude. Eu gosto disso!
_ Quer começar indo encontrar-se com Bart?
_ Hmm... Leu a minha mente!
_ Nah, eu vou ficar por aqui.
Deixando Hammer para trás, Citan guiou Rico até a ponte de comando, seguindo pelo elevador até onde estavam o jovem mestre dos piratas e seu imediato, e o rapaz se voltou com um sorriso.
_ Bem, se não é o Doutor Citan Uzuki e... – e então viu pela primeira vez o gigante verde que acompanhava Citan – er... Esse seu amigo bem grande! Vejo que finalmente despertaram. Eu lamento muito mesmo pelo que aconteceu... Por favor, me perdoem.
_ Eu tenho um nome, sabe – comentou Rico – É Ricardo Banderas... Mas todos me chamam de Rico. E então, pelo quê está se desculpando conosco?
Na verdade, as palavras de Citan sobre Bart e a visão que tivera da Yggdrasil e seu maquinário fantástico tinham impressionado Rico de forma muito favorável, o que era raro, e ele também tivera uma ótima impressão de Bart, que era o líder ali. E o rapaz ficou ainda mais acanhado ao perceber isso.
_ ... Acho que eu devia parar de ficar rodeando... Geralmente eu não sou tão franco ou cerimonioso, mas... Bom...
_ O que ele está tentando dizer é o seguinte – Citan disse de forma direta – as pessoas que nos derrubaram e as pessoas que nos salvaram, são uma coisa só... A tripulação desta nave!
Rico olhou para Bart, para Citan, novamente para Bart e então para Citan outra vez. Aquilo parecia...
_ ...? Você não está querendo dizer... que o Golias em que nós estávamos foi derrubado por...?
_ Ei, você é meio lento aí, hein... – e Bart subitamente lembrou-se da estatura do seu interlocutor – errh, amigão! Mas, na verdade, a nossa Yggdrasil II fez um belo trabalho em derrubar aquele monstro de aeronave! Foi demais!
Levado pelo entusiasmo anterior do desempenho dos ‘Mísseis Bart’, o rapaz começou a falar mais para si mesmo novamente e sem perceber as expressões preocupadas de Citan, Sigurd e dos demais, ou o inconformismo crescendo no rosto de Rico.
_ Você devia ter visto! – e não viu que Rico estava com a mão sobre os olhos – Uau! Meus ‘Mísseis Bart’ com certeza foram demais...!!
Foi a vez de Citan cobrir os olhos e voltar-se para o outro lado, enquanto Rico saltou sobre Bart gritando que aquilo não ficaria assim, e metade da tripulação veio tentar tirá-lo de cima do seu jovem mestre. 



THE SOUNDS OF THE SEASON ARE HER

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