Terça-feira, Janeiro 31

VOCÊ NÃO É VOCÊ (Ou simplesmente Câmera: Parte 3)


Holas de novo, senhoras e senhores... e rapaziada em geral ^^ Saudações do Louco!

Fazendo a Versão Alternativa (vcs vão saber o que é depois), me deparei com uma questão interessante que vez por outra é mencionada na Dragon Slayer, leitura obrigatória pra boas idéias e diversão - a menos que vc não curta RPG, videogame e anime: jogadores interpretando o personagem por vezes têm muita dificuldade em 'dissociar' do personagem.

E me ocorreu que o mesmo pode facilmente rolar com escritores e personagens em questão - afinal, se um único personagem pode causar essa confusão, o que dirá todos os personagens da história - trago aqui Persona.

Falar a verdade, isso pode ser meio difícil, principalmente quando você tá começando. Já disse uma vez, eu imagino que mesmo os autores não saibam cem por cento da história, a não ser aqueles seres louváveis (e loucos?) que mantém a história sob pulso firme, com começo meio e fim inalteráveis. Então, pode ser comum, até mesmo frequente, deixar o personagem acabar falando algo, ou ciente de algo que só deveria acontecer mais tarde.

Um exemplo. Aquele momento crítico, em que o personagem precisa decidir entre pular ou não, desafiar o assaltante a atirar ou não, até mesmo a menina que precisa decidir se vai casar mesmo ou se vai fugir com o cara de quem sempre gostou, sem saber se vai dar tudo certo no final. Você é o autor, ou autora, já sabe que vai! (ou não, né Miki? ^^) E naquele momento que tá se escrevendo, você 'é' o personagem que tem que tomar a decisão. E se quer que leitores e leitoras curtam de verdade, é preciso deixar claro que seu personagem 'não' conhece o desfecho. A pessoa tá insegura, gente!

Imagine a si mesmo, algo terrível atrás de você e um pulo alto pra caramba, que você não sabe 'mesmo' se vai conseguir fazer. Tem coragem pra pular? (inferno, ontem eu tava suando enquanto pulava em Uncharted 2!) Tem um assaltante com uma arma na sua cara. A situação é de risco pra todo mundo ao redor. Você 'desconfia' que a arma tá vazia, ou é de mentira, mas tem mesmo coragem de dizer Atira então, maluco!? A menina vai ter uma vida 'estável' se casar, nunca mais se preocupar com dinheiro, lugar onde morar... e vai, o mino que quer casar com ela não é nenhum barango, periga até ela conseguir gostar dele depois de um tempo. Fugindo com o amor da vida dela, vai ficar mais feliz 'agora'; será que compensa? Será que esse gostar todo resiste à passagem do tempo, dificuldade financeira, ela engordando depois do primeiro filho, fins de semana com o cara sentado no sofá, vendo futebol e engordando também, de tanta cerveja?

Que decisão você tomaria no meio dessa incerteza toda?

Se não conseguir passar 'essa' impressão pra quem tá lendo, se não deixar leitor tenso, você vai ter falhado. Interessar quem leia é a principal obrigação de qualquer roteirista, inovar, fazer o inesperado. Não entendo como novela ainda faz sucesso, repetindo a mesma história over and over again, mas com essa exceção à regra, histórias sem carisma, sem a capacidade de convencer podem, no máximo, virar um modismo. Mas passam.

Meu velho amigo Antero, O Cara, que nunca gostou muito de ler, dizia que uma das coisas que mais matava seu interesse em leitura eram histórias previsíveis (aquelas com título tipo 'A morte de Lúcio', que você não precisa ler pra saber que tem um Lúcio que morre ali). E sua história pode ficar assim se você deixar seu personagem agir como se soubesse o que vai acontecer depois. Que risco tem em saber que seu carro vai bater de frente com um trator, se de antemão você sabe que vai escapar sem um arranhão?

Dissocie-se do personagem. Enquanto você for a menina, não sabe o que vai ou pode acontecer com seu futuro. Enquanto for o assaltado, é a sua vida que tá em risco; aquela arma 'pode' ser de verdade, e com munição. Enquanto for o perseguido, pensa de novo. Talvez o que te persegue possa ser evitado, ou enganado, sem o pulo.

Incerteza. Indecisão. É o que mais ferra com a gente na vida real, porque você sempre hesita antes de uma atitude importante. E também, é o 'sal' da vida, e da boa escrita. Leitores podem esperar que o Um Anel seja destruído, que Stuttering Bill vença a 'Coisa' em It ('A Coisa', em português), que Harry vença Lorde Valdemar, mas se o leitor perceber desde o começo que o autor gosta demais dos personagens, a hora da decisão perde a graça. Você precisa ter dúvida, até o último instante, que eles vão sair dessa, e dar essa impressão é uma das marcas de um(a) grande escritor(a).

Forte amplexo tagarela do Louco (que por vezes também não sabe quem é ^^)

Quinta-feira, Janeiro 12

PAIS E FILHOS, VERSÃO GRINGA

Hola, ladies and gentlemen! Saudações do Louco!

Tinha um post de escrita, mas não lembro onde deixei as anotações. Fora isso, tive uma visão do futuro e de como ele vai ser pra esses pais e mães idiotas que pensam que basta colocar filho no mundo pra ser pai e mãe. Mas, nas palavras sábias do Nestor da Viola (que apresenta um programa de rádio legal pra quem curte música raiz na Rádio ABC AM nos sábados), 'Cuide bem de seus filhos. Afinal de contas, eles é que vão escolher o seu asilo' ^^

E pra quem a mensagem não ficou muito clara, vai uma música legal em cima disso. Foi a única música com Ugly Kid Joe de que eu realmente gostei.

Forte amplexo do Louco!

CATS IN THE CRADLE (Ugly Kid Joe)
Gatos no Cesto

My child arrived just the other day;
Meu filho chegou ainda outro dia;
Came to the world in the usually way
veio ao mundo do jeito de sempre
But there were planes to catch and bills to pay.
mas havia aviões pra pegar, e contas a pagar.
He learned to walk while I was away.
Aprendeu a andar enquanto eu estava fora.
He was talkin' 'fore I knew it.
Tava falando antes que eu visse.
And as he grew he said,
E enquanto crescia, ele dizia,
"I'm gonna be like you, Dad.
'Eu vou ser igual a você, papai.
You know I'm gonna be like you."
Sabe, eu vou ser igual a você.'

Chorus :
And the cats in the cradle and the silver spoon,
E os gatos no cesto, e a colher de prata,
Little boy blue and the man on the moon.
Garotinho triste, e o homem da lua.
"When you comin' home ?"
'Quando você vem pra casa?'
"Son, I don't know when.
'Filho, não sei quando,
We'll get together then.
vamos ficar juntos, então.
You know we'll have a good time then."
Sabe, vamos nos divertir muito então.'

Well, my son turned ten just the other day.
Bem, meu filho fez dez ainda o outro dia.
He said , "Thanks for the ball, Dad. Come on, let's play.
Ele disse, 'Valeu pela bola, papai. Anda, vamos brincar.
Could you teach me to throw ?" I said, "Not today.
Me ensina a lançar?', Eu disse, 'Hoje não.
I got a lot to do." He said, "That's okay."
Tenho muito o que fazer'. Ele disse, 'Tudo bem.'
And he walked away and he smiled and he said,
E, ele se afastou, sorriu e disse,
"You know, I'm gonna be like him, yeah.
'Sabe, eu vou ser igual a ele, é.
You know I'm gonna be like him."
Sabe, eu vou ser igual a ele'.

Chorus

Well, he came from college just the other day,
Bem, ele veio do colégio ainda o outro dia,
So much like a man I just had to say,
praticamente um homem, eu simplesmente tive que dizer,
"I'm proud of you. Could you sit for a while ?"
'Estou orgulhoso de você. Pode se sentar um pouquinho?'
He shook his head and he said with a smile,
Ele balançou a cabeça, e disse com um sorriso,
"What I'd really like, Dad, is to borrow the car keys.
'O que eu queria mesmo, papai, eram as chaves do carro.
See you later. Can I have them please ?"
Te vejo depois. Dá elas, por favor?'

Chorus :

I've long since retired, my son's moved away.
Faz tempo que me aposentei, meu filho se mudou.
I called him up just the other day.
Liguei pra ele ainda o outro dia.
"I'd like to see you, if you don't mind."
'Eu gostaria de te ver, se não se importa.'
He said, "I'd love to, Dad, if I could find the time.
Ele disse, 'Eu adoraria, papai, se tivesse tempo.
You see my new job's a hassle and the kids have the flu,
Sabe, meu novo emprego é uma loucura, e as crianças pegaram gripe,
But it's sure nice talkin' to you, Dad.
Mas é muito legal falar com você, pai.
It's been sure nice talkin' to you."
Com toda certeza, foi legal falar com você.'

And as I hung up the phone it occurred to me,
Enquanto eu desligava o telefone foi que me ocorreu,
He'd grown up just like me.
Ele cresceu igualzinho a mim.
My boy was just like me.
Meu menino era igualzinho a mim.
(Yeah, yeah, yeah)

Chorus (2X)

Terça-feira, Dezembro 27

DIREITOS BÁSICOS

Yos de novo, povo! Pro último post do ano, saudações do Louco!

Desculpa, eu tava pensando aqui em mais um ou dois temas, mas acho que vou guardar pro ano que vem - sim, eu volto no ano que vem! Ou pelo menos quero muito isso - e sendo assim, vou sair com algo simples, mas do nível do 'Manual do Bom Caminhante'. Só um lembrete sobre o que fazer, ou não fazer, de um mané que se atreve a pensar que os outros vão dar ouvidos, quando Deus que é Deus abriu mão de interferir no Livre Arbítrio desde o início.

(pra maiores detalhes, assistam ao primeiro Todo Poderoso. Qualé, vocês não acharam 'mesmo' que o mundo ficou assim 'porque Deus quis', né...?)

Três direitos básicos que todo o ser humano deveria respeitar e ter respeitados:

_ hora do banheiro
_ hora de comer
_ hora de dormir.

É desumano querer que alguém interrompa qualquer uma destas ações.

(justiça seja feita, meu demônio, alter ego e personagem principal Darris me lembra que a 'hora de transar' também se encaixa, mas eu queria manter o post com censura livre. Mas taí o lembrete, já foi mesmo...)

Forte amplexo, Feliz Ano Novo e que os três... tá, 'quatro' direitos básicos sejam mais respeitados o ano que vem! Tudo por uma sociedade mais feliz - ou menos stressada ^^

Terça-feira, Dezembro 13

ÁRVORE

É, tava mais do que na hora de reaparecer... Olá, gente que lê! Saudações do Louco!

A gente realmente não tem muita noção quando o problema não é nosso... De vez em quando me dizem que 'escrever é a coisa mais difícil do mundo', e isso me parece absurdo, porque parece óbvio. Mas levando em conta que não seja, trago a vocês Galhos de uma Árvore.

A primeira coisa a se lembrar é que toda história 'vem de algum lugar', e com certeza 'vai pra algum lugar'. Digo, mesmo quando vc conhece um novo amigo, ou amiga; a pessoa não apareceu do nada ali pra falar com você. Ela viveu, fez outras coisas, e depois que sair dali pode continuar como amigo ou amiga na sua vida, mas vai ter vida própria e se desenvolver de acordo. Com suas posturas e atitudes, eventos lógicos vão dar sequência à sua vida, e assim vai ser até o fim. É como rola pra todo mundo!

E é como deve rolar pra uma boa história. É como uma árvore. Você pode começar a contar a partir do tronco, ou de algum ponto que preferir, mas dificilmente vai começar das raízes. Mesmo que não tenha pensado nisso, ou não seja interessante começar dali, os personagens da sua história 'vieram' de algum lugar, têm passado, e 'vão' pra algum lugar, terão futuro, dependendo dos atos e palavras de seu presente. Tudo o que se faz ou decide na vida traz consequências, e essas consequências são o desenrolar da história na vida real. Por quê deveria ser diferente numa ficção?

E por ficção aqui eu quero dizer 'qualquer história'. Quer você goste de ficção fantástica como eu, quer curta algo mais 'vida real', essa é uma regra inescapável. Então basta pensar nas consequências! Sua personagem começou o dia saindo da cama. Tá, e agora? Ela vai trabalhar? Tomou café da manhã? Tá de folga hoje? Só isso já dá uma ótima sequência! Façamos como meus livros favoritos, da série 'E agora você decide'...

_ vai trabalhar? Ela tem carro, pega condução ou mora perto do trabalho e vai andando? Pense no que poderia acontecer em cada situação, e mais se desenrola daí!

_ tomou café da manhã? Talvez. Ou talvez tenha dormido até tarde. Talvez trabalhe de madrugada, e 'café da manhã' pra ela é quando o sol tá se pondo. E, talvez não tenha nada no jeito, e ela tenha que ir ao mercado primeiro. Ou talvez encontre algo estragado na geladeira, sei lá. Pense no que poderia acontecer com 'você', por exemplo.

_ tá de folga hoje? Por quê? É feriado, ou ela pegou licença médica? Alguma reforma no escritório vai deixar o lugar em que ela trabalha fechado? Uma greve de ônibus...?

Viu? Bolar uma história é moleza; o que se vai fazer com ela, e como mantê-la nos trilhos, é o que pode dar mais trabalho. Mas você começa a pensar num evento comum, como começar o dia, um monte de possibilidades e suas consequências praticamente pulam sobre você. O truque é fazer malabarismo com essa coisa toda, e colocar tudo sobre a mesa na ordem correta, com cada peça no seu lugar.

Como os galhos, folhas, flores e às vezes frutos de uma árvore, cada um crescendo como e onde deve crescer. Como na nossa própria vida.

Forte amplexo do Louco, e boa semana, galera ^^

Segunda-feira, Novembro 28

Leitor


Só uma idéia que eu tive no dia de hoje, 28/11/11, depois de uma notícia triste sobre seres humanos. Olha só...


03/04

A primeira vez em que reparei nele.

Tava cansado, voltando da escola depois de ter trabalhado o dia inteiro, como de costume, e em uma das curvas do ônibus eu notei esse cara, lembrando que já tinha visto ele ali antes. Outro dia, claro, mas tinha. Sempre sentado no banco único, sempre distraído com alguma coisa, parecendo indiferente aos sacolejos. Quero dizer, a gente rala o dia inteiro e sempre fica com inveja de quem tá sentado, ainda mais quando o ônibus acelera na ladeira, e parece procurar de propósito cada buraco e valeta da rua. Mas esse cara... Ele simplesmente não parecia notar coisa nenhuma.
Já tinha visto ele enquanto eu passava pela catraca, e sabia que o que distraía ele era um livro. Não deu pra ver a capa. Faz tempo que tinha visto ele com esse mesmo livro, e me perguntei se estaria relendo. Nah, bobagem. Já é chato o bastante ter que ler uma vez; devia ser capa parecida. Ainda pensava nisso quando desci.

06/05

Engraçado como nem sempre ele tá no ônibus, mas quando tá é virtualmente impossível ver em outro lugar. Agora tenho certeza, tá lendo outra coisa... mas ele ri enquanto tá lendo. Por vezes um sorriso disfarçado com a mão no rosto, outras vezes é tanto que o corpo inteiro chacoalha. Que maluco. Mais de uma pessoa reparou, que eu vi, e se fosse eu morria de vergonha de me pegarem assim, rindo sozinho, de alguma coisa escrita num livro, ou gibi, sei lá. Quero dizer, não é da minha conta, mas ele até parece maluco...!

08/05

Esquece, ele não 'ri' quando tá lendo, reparei hoje... Também arregala os olhos, acena com a cabeça como quem concorda, dá de ombros... Tá, eu sei, não é da minha conta, mas entre uma curva e outra do ônibus, quando a passageira sentada no banco do meu lado não tem um decote muito cavado, ou é uma tiazinha... ou tiozinho -_-'... a atenção acaba voltando pro maluco do livro. Já vi gente dormindo, conversando, ouvindo música no talo com fone de ouvido, e sem fone - e dá vontade de esmurrar, nesse caso - mas até onde dá pra ver, ele não se perde. De quando em quando, se o ônibus dá uma brecada muito brusca ou se demora tempo demais parado em algum lugar - e Deus sabe que isso tem rolado muito nos últimos tempos, com a Avenida dos Países em reforma - ele interrompe a leitura um pouco e olha ao redor, parecendo curioso, mas em segundos volta a atenção pro que estiver lendo, como se perturbação nenhuma fosse mais interessante. Afinal, o que ele tanto lê...?

10/08

Dessa vez não tinha lugar pra sentar quando o cara apareceu, mochilinha nas costas e livro na mão, e um vislumbre rápido mostrou pra ele o mesmo; nada de leitura hoje, colega! Não tem lugar...

Hein? Olha lá; ao invés de passar pro fundão, ele mudou a mochila pra frente, parecendo mãe com nenê no colo, recostou na barra de apoio logo ao lado do lugar do motorista, trançou o braço direito nela, e... tá lendo! De pé, de costas pro sentido em que o ônibus avança - o que deixa qualquer um enjoado - e tá lendo, parecendo muito pouco perturbado pelo movimento frenético do busão. Tudo bem, parece que não é tão tranquilo quanto o lugarzinho reservado onde ele costuma sentar, mas tá se virando! Sem uma das mãos pra virar a página ele apoia o livro na mochila e usa a mesma mão segurando o livro pra isso, mas continua lendo com a mesma atenção, isso é claro - basta ver que tá fazendo as mesmas caras e bocas de sempre, às vezes rindo, às vezes dando de ombros... Cara, que doido! Não tá nem aí pros outros não, véio...?

Ouço um carinha sentado no banco de trás comentar alguma coisa com a menina sentada à esquerda dele, e ela dá uma risadinha. Pela direção que tão olhando, nem preciso adivinhar; é do leitor que eles riem. Mas, engraçado... Acabo sentindo a 'raiva alheia', o que talvez o leitor sentisse se ouvisse os comentários. Tão rindo do quê, o cara não tá incomodando ninguém...

E é quando eu me toco; ele não ouviria os comentários. Não sente os trancos do ônibus, nem o cheiro das pessoas suadas, nem qualquer outro desconforto. Tá ciente o bastante pra não perder o ponto, talvez, mas enquanto estamos todos aqui, pensando na canseira do dia, no semáforo que não abre e nos problemas do dia... ele não. Esse cara deve tá numa escola de bruxos, encontrando com vampiros ou vampiras, caçando prisioneiros fugitivos ou até fugindo de algum maníaco de história de terror, ou monstro. Sei não. Mas ele tá tão concentrado que estar de pé, sentado, tanto faz, se puder continuar lendo. Tanto, que se alguém precisar de alguma coisa, vai ter que mexer com ele pra isso. E me pego com um pouco de inveja, e um tanto de admiração. Meus professores reclamam que eu não sei escrever direito, me mandam ler uma pá de livro pra escola... e eu capoto no sono nas primeiras cinco linhas. Não consigo, nem quero, ler coisa nenhuma. Mas esse cara lê com um gosto que acho que eu não tenho nem pra ver filme. Quase me deixa curioso.

07/09

Esquisito. Nunca mais vi o leitor. Nem no lugar dele, nem recostado no apoio do lado do motorista... nem em lugar nenhum. Será que tá de férias? Que mudou de serviço, ou de linha de ônibus? Não é como se não tivesse qualquer outra distração; quem tá de pé num ônibus lotado se distrai o bastante simplesmente não caindo com os sacolejos; é só que é estranho não ver mais o leitor. Até tentei pegar uma revista lá da escola - tinha quadrinhos, não muita coisa escrita e a maioria era engraçada - e trouxe pra ler no ônibus ou na fila, pelo menos. Não virou; até achei lugar pra sentar, mas deu um enjôo desgraçado, e por pouco eu não chamo o Hugo. Pensa num final de dia de lascar. Desci do ônibus mais verde que abacate, e xingando a família do leitor até a décima oitava geração, e desisti de brigar com a natureza. Nada mais de ler em ônibus pra mim!

31/10

_ ... aquele, lembra? O do livro.

_ Do horário da noite? Lembro! Tá de brincadeira, rapaz...!

Tava quase pegando mesmo no sono; finalmente consegui lugar pra sentar, e na janela, bem do lado do assento do cobrador, e a canseira da semana inteira montou em cima feito motoqueiro em moto. Mas o sono passou logo quando eu ouvi:

_ Não, é sério mesmo. Bem ali, perto do Sam's Club; o Jairo fez a curva, o ônibus jogou pra direita e ele caiu. Assustou todo mundo. Eu tinha visto, mas achei que tava dormindo. Parada cardíaca, né Jairo...?

Estranho isso, mas pareceu de repente que ficou muito frio, e quieto. Nem o barulho do trânsito eu ouvia, nem a pessoa sentada do meu lado parecia que tava ali. Só do que eu tinha plena consciência era da voz do cobrador, falando com o outro, que tava de folga.

_ É. A gente aproveitou que tava ali e foi pro Bangú, e os médicos confirmaram. Devia ter morrido um ou dois minutos antes, mas do jeito que tava ficou, até o ônibus jogar pro lado. Mas tinha que ver o trabalho que deu. O corpo não tinha enrijecido nem nada, mas tava difícil soltar a mochila dele; o livro tava tão preso na mão que não tinha como soltar. Tiveram que cortar as alças da bolsa, pra tirar do corpo, mas ouvi dizer que só a família tirou o livro...

Não consegui ouvir o resto, porque tava pensando no leitor. Que desgraça, eu nem conhecia o cara...! Não consegui acostumar a ler, também, ainda mais agora, que ele levou pro túmulo o segredo de ler em movimento sem ficar enjoado...

Mas, mesmo que não consiga explicar, fiquei meio triste. Não sei por quê, mas saber que nunca mais ninguém vai rir, arregalar os olhos ou dar de ombros no ônibus, nem nunca mais vai deixar o corpo enquanto viaja pra outro mundo das páginas de um livro nos vinte e poucos minutos de trajeto, lendo sentado ou de pé, me parece que foi uma coisa que não devia ter acontecido. Quero dizer, quanta gente ainda lê com tanta dedicação por aí?

Eu sei que eu não.

Quarta-feira, Novembro 16

THE ONE (Parte II)

Participação Especial do Darris


Típico bar. Clientes nem tão típicos assim. Mundo de fantasia, talvez. E eis que entra o pai da matéria, conhecedor profundo de dez em cada nove bares deste e de todos os mundos.

_ Fala, bando de mocorongo! - Darris invade o local, chamando a atenção como só ele sabe - E aí, minazinhas? Firmeza? Passando rápido aqui hoje, tô com uma missão que não pode esperar.

_Você, passando rápido num bar, Darris? - Tallulah pergunta, de trás do balcão. Nem ela diz se é o nome verdadeiro, nem ele se dá ao trabalho de perguntar - Gente, terminem logo os drinques que eu vou fechar mais cedo; o fim do mundo tá chegando!

_ Ha. Ha. Ha, Tala - Darris finge rir, e muito mal - Me lembra mais tarde que eu termino de rir. Agora, tá rolando uma pesquisa e essa galera toda tá inclusa no meio, e a figura mais 'única' aqui dentro vai receber um presente especial; um desejo, qualquer coisa que seja, garantido pelo autor.

Os frequentadores do bar se voltam na direção do demônio. Abusado, de péssima reputação, mas nem mesmo Darris mentiria com aquilo. Até porque, ele nunca andaria com uma prancheta, lápis e uma ficha se não fosse verdade. E ele caminha até a mesa mais próxima...

_ Licença... Oi, você aí, me responde um negócio? Que tipo de personagem você é?

_ Um nobre cavaleiro, meu rapaz, único de minha estirpe - responde um homem alto, adulto e de barba, de armadura completa mas sem o capacete - Minha abastada família, um dia o pilar de nossa sociedade, foi atraiçoada por aqueles a quem chamava de amigos e lançada na sarjeta com nomes pejorativos. Por meus próprios esforços, somente, e o auxílio de pessoas de verdadeiro valor, aos poucos me recupero e pretendo restaurar a honra de meus ancestrais.

_Hm-hum. Beleza - Darris faz uma marca rápida na folha da prancheta - Valeu aí. E você, mina, cê tá com ele?

_ Bem... Não abertamente - uma dama muito atraente com vestido de época, daqueles com espartilho que fazem todos os seios parecerem grandes, pra deleite do Darris, responde por trás de uma máscara com formato de borboleta - Sou uma agente, na verdade, dos mesmos inimigos que prefeririam ver Morgan continuar na ruína, bem como sua família. Mas apesar de meu trabalho sórdido, na verdade tenho um coração honesto e acabei por me apaixonar por ele. Assim, acabo por trair meus empregadores em nome do que considero a verdadeira justiça, e espero ajudar meu amado a alcançar seus objetivos.

_ Ah, sei, uma espiã decente... - mais anotações por parte de Darris, que ainda arrisca mais uma olhada indiscreta dentro do espartilho da moça - Tudo bem, boa moça... aliás, boa mesmo... Valeu do depoimento, peraí um pouquinho... E você, ô emo aí no cantinho, qual é a sua?

_ Sou um vampiro - o rapaz responde por trás de seus olhos tristes e inexpressivos - E é uma desgraça, pois me apaixonei por uma mortal. Meus instintos, minha família e amigos insistem que me alimente do sangue dela, mas jurei nunca mais tomar o sangue, ou a vida, de qualquer humano. Especialmente da garota que amo... Não, prefiro morrer.

_ Firmeza, continua me enchendo os pacová com esse drama todo que eu vejo teus lados - Darris rosna, anotando com ar de entediado - Saco, pior que, do jeito que a coisa tá ruim, periga fazerem livro desse dramalhão todo. E o que é pior, pode até virar filme! Nah, bate na madeira, devo tá exagerando... Ei, e você? Minazinha jeitosa, sozinha aí no canto? Liga a luz, fia, não dá pra te ver direito!

_ Não...! Assim é melhor - ela responde, revelando olhos claros como a luz, emoldurados por cabelos e pele escura - É melhor que não me vejam. Elfas negras têm muitos inimigos, e uma de nós que apenas deseje conhecer o mundo além das cavernas pode ser caçada até mesmo por suas irmãs, caso seja descoberta...

_Tá, tudo bem, desculpa ter perguntado - Darris se afasta, tomando mais notas e murmurando - Francamente, 'elfa negra que gosta de luz'... Tá ficando complicado. Opa, peraí, falta uma... Aí, mesmo sendo clichê, o que uma mulher como você, tão refinada, tá fazendo no meio de tanto personagem?

_ Deveria ser óbvio - a dama replica, um olhar tão imponente que só perde pro olhar metido a besta do próprio Darris - Uma dragonesa não pode surgir entre humanos em sua forma original. E prefiro a companhia destas pessoas à de meus pares; eles precisam de minha ajuda, e mostram o devido respeito. E se sou respeitada, eu os respeito.

_ Melhorando, melhorando... 'dragonesa que respeita humanos' - Darris rabisca, agora parecendo sem paciência - Eu devia ter desconfiado quando Dimão me descolou esse trampo, dizendo que eu ia curtir...

_ E aí Darris, encontrou o que queria? - Tallulah pergunta, limpando o balcão com uma flanela.

_ Nah, que nada - Darris dá de ombros - Acho que Dimão tava certo no final, essa coisa de 'personagem único' deixou de existir tem um tempo; hoje em dia tem tanto único da espécie que o mais difícil é...

De repente, ele pára e abre um sorriso. Deve mesmo estar ficando lento, depois de tanto tempo. A resposta é óbvia!

_ Diz aí, Tala, como é que cê ganha a vida?

_ O de sempre - ela também dá de ombros - Acordo cedo, vou dormir meio tarde, e como isso aqui é bar, preciso trabalhar de domingo e feriado também. É um saco quando o dia começa, porque geralmente me trazem notas enormes e me olham com aquela cara de 'não tenho troco', e preciso correr pela vizinhança até achar alguém que troque notas grandes. E claro, preciso me arranjar nos trinta com cheques sem fundo e cartões de crédito estourados...

_ Beleza, acho que já deu; se Dimão quer uma personagem mais única que isso, ele que venha aqui buscar ^^ Anda fofa, vamo lá catar teu prêmio. Quem sabe, um estoque ilimitado de trocados, ou um bando de leão de chácara...

Terça-feira, Outubro 25

NOW AND THEN


Oi gente que lê. Saudações noturnas do Louco.

Não sei explicar muito bem, mas tenho uma impressão triste à minha volta. Talvez seja só um bode, uma daquelas crises de tristeza que vem de lugar nenhum sem ser convidada, mas acho que não. Parece que algo meio ruim tá pra acontecer.

Pode ser só isso, ou talvez seja uma inspiração que vai tomar forma mais pra frente, sei lá. Mas movido por isso, vou submeter hoje uma música que eu gosto e me parece apropriada, mais uma das pérolas do Blackmore's Night. E se vc consegue vir aqui e dizer, 'Ei Louco, nunca ouvi falar', tá mais que na hora de ir na wikipedia. Ou, pra quem quiser mais letras, nesse link aqui...


E melhor ir andando, assim que traduzir a letra pra vcs. Té mais.

Now and then (Blackmore's Night)
De vez em quando

The past is so familiar,
O passado é tão familiar,
But that's why you couldn't stay.
Mas é por isso que você não pôde ficar.
Too many ghosts, too many haunted dreams.
Fantasmas demais, muitos sonhos assombrados.
Beside you were built to find your own way...
Além disso, você foi construída pra encontrar seu próprio caminho...
But after all these years,
Mas depois de todos esses anos,
I thought we'd still hold on.
achei que ainda nos aguentaríamos.
But when I reach for you, and search your eyes
Mas quando tento te tocar, e procuro em seus olhos,
I see you've already gone...
vejo que você já se foi...

That's OK.
Tá tudo bem.
I'll be fine.
Vou ficar bem.
I've got myself, I'll heal in time.
Eu tenho a mim mesmo, vou me curar com o tempo.
But when you leave just remember what we had...
Mas quando partir, apenas se lembre do que nós tivemos...
There's more to life than just you.
Há mais na vida do que só você.
I may cry, but I'll make it through.
Eu posso chorar, mas supero no final.
And I know that the sun will shine again
e sei que o sol vai brilhar de novo
though I may think of you now and then...
embora eu possa pensar em você, de vez em quando...

Can't do a thing with ashes
Não há o que se fazer com cinzas,
but throw them to the wind...
a não ser lançá-las ao vento.
Though this heart may be in pieces now
Embora esse coração possa estar em pedaços agora,
you know I'll build it up again and
você sabe que eu vou reconstruí-lo outra vez, e
I'll come back stronger than I ever did before.
eu vou voltar mais forte do que jamais voltei.
Just don't turn around when you walk out that door...
Só não se vire quando passar por aquela porta...

That's OK.
Tá tudo bem.
I'll be fine.
Vou ficar bem.
I've got myself, I'll heal in time.
Eu tenho a mim mesmo, vou me curar com o tempo.
But when you leave just remember what we had...
Mas quando partir, apenas se lembre do que nós tivemos...
There's more to life than just you.
Há mais na vida do que só você.
I may cry, but I'll make it through.
Eu posso chorar, mas supero no final.
And I know that the sun will shine again
e sei que o sol vai brilhar de novo
though I may think of you now and then...
embora eu possa pensar em você, de vez em quando...

That's OK.
Tá tudo bem.
I'll be fine.
Vou ficar bem.
I've got myself, I'll heal in time...
Eu tenho a mim mesmo, vou me curar com o tempo...
And even though our story's at the end
e apesar da nossa história estar no final
I still may think of you now and then...
eu posso ainda pensar em você, de vez em quando...

Terça-feira, Outubro 18

INDIANA LOUCO


Nesta quarta-feira, dia dezenove do mês de outubro do ano de Nosso Senhor de 2011, saudações do Louco, seres humanos leitores! E sim, pra vocês também, entidades não-humanas que, não obstante, gostem de ler ^^

(tá, tudo bem, pra qualquer um que estiver lendo, e agora chega; se ficar me ocupando de toda possibilidade, não vou começar o post nunca!)

Estava agorinha mesmo lembrando do tempo que já fazia - mais de uma semana - sem vir postar e pensando no que podia ser o assunto da vez quando lembrei de algo que mencionei numa das apresentações do Oito Caminhos; trago à baila, então, Admirável Mundo Velho.

Toda história criada por qualquer um tem elementos básicos; cenário, personagens principais, heróis e vilões, motivos... De 'baseado na vida real' até 'delírio de bêbado', qualquer história que se preze precisa de um enredo. Tá, eu acredito na capacidade de autores de bolar qualquer coisa, então pode ser que até tenha uma que não, mas vamos pegar a regra geral, pra não perder o fio da meada. Se você é como eu e segue o impulso de escrever porque sim, os primeiros eventos aparecem muito antes de se saber por que ou como (entre outras coisas, isso explica porque Jérsen Alkan não tinha nome até o nono ou décimo capítulo em Oito Caminhos; eu queria contar história, não pensar em nome!). E ainda acho essa a forma mais interessante de começar.

A longo prazo, porém, acho difícil que autores e autoras não pensem numa estrutura, uma 'base' de onde a história principal precisa vir. Hora de avançar pro passado!

Não importa se sua história é novela, conto de terror, fantasia, ficção científica ou o que for, seus personagens não brotaram ali do nada. Tá, brotaram, ao menos na sua mente... mas na vida deles, eles 'precisam' ter um fundo histórico. E o mesmo vale pro mundo, pra realidade em que eles estão. Já parou pra pensar como pode ser divertido, e empolgante, criar esse novo mundo?

Na história da minha querida Christabel (postada por completo em http://dkqueenchristabel.blogspot.com/; recomendo clicar nos 'archives', e rolar pra baixo. Como este blog aqui, os posts mais antigos vão descendo e ficam no rodapé da página), o ambiente era o nosso mundo, depois que a civilização atual tivesse sido substituída por uma em que utensílios que funcionassem à eletricidade tinham sido substituídos por motores e geradores a vapor, por um motivo que consta na história. Oito Caminhos tem toda uma civilização anterior, com seus tiranos e heróis. E acho que a graça da coisa tá aí. Pense em como o mundo era antes da época da sua história. O que rolava? Por que ficou diferente? Tem alguém que seja descendente direto das pessoas de lá? Ou, melhor ainda, tem alguém que 'viveu' naquele período?? Os livros de Anne Rice (a 'Tia Arroz' da Urd ^^) trazem vampiros melancólicos da origem do tempo, e eles viram os grandes períodos históricos como personagens, não espectadores.

Isso dá muita riqueza à história que é contada, porque ela tem um 'passado'. Veio de algum lugar. Logo, deve 'ir' a algum lugar também.

E sabe o que é mais divertido? Você cria o passado. Prédios, montanhas, lagos, oceanos... você decide onde 'tudo' vai estar, e onde estava antes!!! Com medo de me achar, e já me achando, você vira 'Deus' na sua história! Tá, todo autor é potencialmente 'Deus', mas você já tinha se dado conta da 'profundidade' desse pensamento? Mover, criar e apagar rios, mares, montanhas... tudo?

Uma boa história, como eu entendo, tem que poder divertir qualquer leitor. Mas uma história boa 'de verdade', a meu ver, precisa divertir antes de mais nada o primeiríssimo leitor: seu próprio criador. Se você não curte o que tá escrevendo, e se a luta constante pra criar ou reformar a idéia não são divertidos, então ou você não é um autor de verdade, ou tá fazendo algo errado. Algo seriamente errado.

Forte amplexo do Louco, no passado, presente e futuro! ^_^

Terça-feira, Outubro 4

THE ONE (Tipo Único)


Holas, seres humanos de todas as variedades! Saudações do Louco!

Tendo um insight parecida essa semana (ou pode ter sido aquele iogurte antes de dormir), me ocorreu um assunto interessante que eu tenho 'quase' certeza de não ter puxado ainda. Trago então à tona Personagens Raros Bem Comuns.

Quando criei o Mago Vermelho Kane na versão do meu Oito Caminhos Para Eldora (http://www.clubedeautores.com.br/book/50243--Oito_Caminhos_para_Eldora) eu tava tentando participar de um RPG online de uma amiga, e ela fez um comentário muito interessante; nada de personagens do tipo 'o único elfo negro bonzinho', um 'vampiro que não suga sangue de humanos', um 'dragão humilde'... e por aí vai.

Em algum ponto da história literária, alguém decidiu que criar um personagem 'único' tinha um grande apelo (imagina, aquele tipão com cara de herói na verdade ser um vilão épico!! Imagine um Super-Homem que não estivesse nem aí com a humanidade! Um Dr. Destino que fosse super do bem, preocupado em ajudar o povão!). E a idéia 'é' boa, sem discussão. O problema é que, uma vez que se faz, os outros podem sempre aproveitar a mesma idéia (aproveitar, adaptar, copiar, plagiar... Depende muito de quem tá escrevendo, e como decide usar a coisa). E ao que parece, 'muita' gente decidiu fazer uso disso, e o resultado foi um verdadeiro desfile de personagens raros - o que, lógico, acabou com a raridade deles. ^^

Se todo mundo na sua cidade tem um poder especial ou uma identidade secreta (leia Top Ten do Alan Moore; a cidade de Neopolis e seus super-habitantes existe mesmo!), ser super não é especial; é a regra! Se sempre que você fizer uma espiã linda, gostosa e do mal ela acabar se apaixonando pelo mocinho, ou ficar comovida com a situação desse ou daquele e não for tão má assim, ninguém mais vai esperar grande coisa das próximas. Ninguém vai ficar surpreso com nada que você faça, porque aquele seu estereótipo de vilão ou herói vai ser visto imediatamente como 'a exceção da regra'. Mas se todo mundo é exceção... então a regra é só fazer exceções!

E com isso você rouba da sua história, talvez, o maior charme dela; a habilidade de surpreender. Ninguém vai querer ler algo que já sabe como termina - bom, a não ser aquela galera ansiosa que já começa pelo final -_-'

Tente fazer uma história com personagens mais comuns. Se seu herói for um herói mesmo, se seu vilão for mesmo do mal, se seu vampiro morrer quando tacarem água benta ou luz do sol nele, beleza. Usar uma exceção de vez em quando é legal, mas não toda hora. Não há nada de mais, e você ainda pode se surpreender com o quanto o normal pode ser especial - Kane só podia usar magias de ilusão, nada que causasse dano real. Ao menos, não sem imaginação. Felizmente, fiz um personagem comum, mas muito criativo ^^

E agora, como exceção à minha regra, vamos parar por aqui antes que a coisa fique maior do que deve ^^ Forte amplexo do Louco!


Terça-feira, Setembro 20

CÂMERA, PARTE 2:

Opa, nós de novo, gente leitora! Mais uma vez, saudações do Louco!

Pra quem acabou de chegar, no post anterior eu falei algo sobre 'posição de câmera' no livro, narrativa e etecéteras; o assunto dava muito pano pra manga e, só pra variar, escrevi demais. Então, achei melhor dividir a coisa toda pra cansar menos quem lê. Vamos adiante então, agora com Focos de Câmera.

Cada pessoa que conta uma história decide como vai dirigir a atenção da audiência (pra maiores detalhes do que eu quero dizer, leia o post anterior ali embaixo). Até onde me lembro, a narrativa pode ser centrada, múltipla e até atemporal.

Na narrativa 'centrada', você tem o 'campo de visão' de um único personagem; geralmente, o principal. Quem já leu Harry Potter e seu gêmeo olimpiano, Percy Jackson, sabe do que tô falando; o leitor vê o que o personagem principal vê. É um jeito interessante de dirigir a atenção da audiência, porque se você não tenta imaginar o que pode estar escondido nas entrelinhas, vai deduzir só o que o personagem deduz, e pode acabar se surpreendendo muito com certos eventos da história (em Prisioneiro de Azkaban, por exemplo, e tomando cuidado com spoilers, todo mundo acredita que o perigoso fugitivo Sirius Black pretende caçar Harry na sua escola, e é o que o próprio Harry passa a acreditar). É um estilo corajoso, na minha opinião, porque é bem difícil manter o foco o tempo todo apenas onde o personagem principal está, e fazer com a história continue interessante (o gêmeo olimpiano Jackson não consegue isso com tanta propriedade; de quando em quando ele tem visões do que os vilões tão fazendo, por conta de 'seu sangue inconstante'. Uma ótima saída pra tirar o foco do herói um pouquinho). Eu devia tentar algum dia desses, pra ver se consigo. Claro, vou tentar sem o 'sangue inconstante'...

No foco múltiplo, o meu favorito, você tem a visão de fora dos eventos, e como num filme, às vezes vê o que acontece com os personagens principais da história; outras vezes, vê o que acontece aos vilões; em outras, ainda, vê algum evento aleatório que vai interferir na história ou apenas dá ao autor/contador da história um tempinho pra reorganizar as idéias. Um ótimo recurso, e não cansa quem tá ouvindo. Claro, você perde um pouco do elemento surpresa (como na série CSI Las Vegas quando comparada ao Monk; na primeira você deve descobrir o criminoso só no final; na segunda, por vezes, você vê claramente quem foi o criminoso, e a trama se desenvolve mostrando como o detetive chegou na conclusão). Claro, cada autor ou contador de história tem seu próprio estilo e preferência mas, no meu caso, que gosto de bastante variação (e não, nem de longe isso mata as surpresas da história. Leiam alguma coisa que eu já escrevi e confiram ~_^), é o melhor estilo.

E também tem o foco atemporal. Filmes como Efeito Borboleta, Matrix e alguns outros do tipo, ou livros como O Guarani são mestres nesse tipo de câmera, onde você ora tem os eventos rolando no presente e, então, viaja no tempo pra ver algo do passado que explica a ação de agora. Ou vai pro futuro, mostrar uma consequência disso. Um estilo bem ousado, e exigente, pra se trabalhar. E, pessoalmente, não sei se é uma boa idéia; muita gente que vê os filmes/lê os livros/whatever acaba reclamando que se perdeu, não entendeu isso ou aquilo... Pra mim, parece aquele quebra-cabeça enorme que, sem uma ou duas peças, deixa de fazer sentido. Pelo grau de dificuldade, é muito interessante de se trabalhar; pelo retorno em satisfação de quem ouve a história - o verdadeiro lucro de qualquer contador de histórias, a meu ver - , deixa muito a desejar. Ou, pelo menos, exige extrema precisão pra se usar direito.

Hm, e acho que chega. Já ficou meio grande demais, de novo, e deu pra cobrir os pontos principais. Se alguém tiver algum outro foco que eu não comentei, ou discordar de algo que eu disse, bom, os comentários tão aí pra isso ^^ Mas paremos por aqui, por ora.

Forte amplexo do Louco!